Palavra de Fé

“Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17,5)

Por Pe. Ronaldo José Miguel, Reitor Seminário de Barretos

É mediante o pecado da idolatria que o profeta Jeremias profere essa maldição para o povo de Judá, convidando-o, em seguida, a pôr a sua esperança somente em Deus: “Bendito o homem que confia no Senhor” (Jr 17,7). Jeremias é um profeta defensor da fidelidade radical à Aliança e da confiança absoluta no Deus de Israel. A Aliança feita no Sinai e renovada em Jesus Cristo é a prova cabal de que Deus sempre se manteve e se manterá fiel ao seu povo, provando o seu amor para conosco, razão da nossa esperança.

Entretanto, se para ele ser profeta é uma eleição, essa implica em rejeição e sofrimento. Por isso, o convite a confiar somente no Senhor, como se estivesse evocando os primeiros versículos do Salmo 146, quando diz: “Não quereis confiar nos príncipes, seres humanos, nos quais não há salvação; exalam o respiro e voltam ao pó”. Com isso, Jeremias revela o quão vulnerável e até traiçoeiro pode ser o homem.

Mas, afinal, realmente devemos deixar de confiar uns nos outros e pôr a nossa confiança somente em Deus? O homem não é digno de confiança? As virtudes teologais da fé, esperança e amor nos educam a pôr toda a nossa segurança em Deus, que não nos abandona, nem mesmo quando imersos no pecado. “Nos mais pesados tormentos, fixo o olhar da minha alma em Jesus Crucificado; não espero ajuda dos homens, mas deposito a minha confiança em Deus; na sua insondável misericórdia está toda a minha esperança”, escreveu Santa Faustina Kowalska em seu diário espiritual, “A Misericórdia Divina na Minha Alma”.

Entretanto, a confiança não seria também a base das nossas relações humanas? Ou, dito de outra maneira: é possível que os homens mantenham vínculos entre si sem que haja o mínimo de confiança? Toda relação humana prescinde universalmente da confiança depositada entre os envolvidos. Ela é a base que vincula qualquer pessoa em uma relação humana: na amizade, no matrimônio e na família, na comunidade religiosa e civil, nas relações profissionais e institucionais como um todo. Enfim, não existe vínculo entre as pessoas que não seja pautado pelo mínimo de confiança. Então, por que o profeta entende o homem como sujeito da desconfiança? É por causa do pecado que o homem, egoisticamente, tende à infidelidade e gera a desconfiança. Só quando levamos a cabo o cumprimento do mandamento novo “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34) é que haverá a necessária confiança entre os homens, assim como é segura a nossa confiança em Deus. Bendito o homem que, amando o próximo, é digno de confiança: ele é como um sacramento, sinal visível do amor e da fidelidade de Deus manifestados em Jesus Cristo.