Hoje acordei com uma notícia preocupante: 3,5 bilhões de reais foram subitamente arrancados do orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia. Parece que o Brasil insiste em aprofundar seu histórico de auto-sabotagem tecnológica. Vamos refletir sobre isso.
Imagine uma sociedade como um cérebro coletivo. Nele, cada profissão é um neurônio especializado, desempenhando papéis únicos. No cérebro saudável, engenheiros são neurônios criativos e solucionadores de problemas, responsáveis por inovação e tecnologia, enquanto advogados atuam em áreas regulatórias, controlando excessos. Mas, no cérebro brasileiro, algo está muito errado.
Enquanto países como Coreia do Sul exibem uma relação de 21 engenheiros por advogado, Estados Unidos (20), Alemanha (18) e até mesmo o Chile (8), o Brasil permanece atolado numa deprimente taxa de apenas 0,8 engenheiros para cada advogado, ou seja, um absurdo. Isso sinaliza uma patologia preocupante: um cérebro mais focado em processos judiciais do que em resolver problemas reais.
Agora, o corte brutal no orçamento científico revela algo ainda mais perturbador: não apenas ignoramos a necessidade de mais engenheiros, como sabotamos deliberadamente os poucos que tentam prosperar. Cortar bilhões do Ministério da Ciência e Tecnologia é como remover oxigênio de um cérebro já asfixiado.
Raízes do Problema – Diagnóstico Crítico:
Hipertrofia do Funcionalismo Público: Jovens brilhantes seguem atraídos por salários exorbitantes e estabilidade garantida, especialmente no Judiciário, mantido pelo contribuinte apático e indefeso a peso de ouro, reforçando um sistema burocrático, fortemente voltado para sua autodefesa e perpetuação dos privilégios, que não gera valor, mas apenas perpetua sua própria existência.
Cultura da Judicialização Patológica: No Brasil, tudo vira processo. Um sistema jurídico congestionado se tornou norma, fazendo com que uma avalanche de advogados seja necessária para sustentar essa máquina que consome muito e produz pouco. A bagunça é de tal ordem que ninguém mais sabe o que é certo ou errado. Depende da interpretação quase aleatória do juiz de plantão. Sem falar que o crime organizado conta com as benesses do judiciário regado a propina, com as notícias recentes mostram claramente a realidade das vendas de sentenças. A questão agora é saber a extensão do problema. Pode ser maior do que pensamos.
Incapacidade Crônica de Priorizar: Enquanto enfrentamos desafios urgentes de infraestrutura e inovação tecnológica, o governo corta justamente da área mais estratégica para o desenvolvimento real.
Consequências Evidentes e Alarmantes:
Dependência Tecnológica Crescente: Sem investimento em ciência, ficamos reféns das multinacionais (IBM, Google, Microsoft, Toyota, Shell, Pfizer, Nestlé, entre outras), que dominam nossa economia, vendendo-nos soluções que não conseguimos criar.
Infraestrutura Precária e Custosa: A falta crônica de engenheiros e o corte de investimentos resultarão inevitavelmente em infraestrutura ainda mais deficiente, aumentando custos e prejudicando a competitividade global do Brasil.
Desperdício de Potencial Humano: Jovens talentos, que poderiam transformar o país, são jogados no labirinto judicial ou empurrados para fora do país, onde a ciência e tecnologia são valorizadas e incentivadas.
Neurocientificamente falando, estamos diante de um cérebro nacional doente, com desequilíbrios crônicos e prioridades absurdas. Ao reduzir investimentos em ciência e tecnologia, estamos ativamente prejudicando nosso futuro, sabotando nossa soberania tecnológica e condenando as próximas gerações ao atraso permanente.
Está na hora de um tratamento urgente. Precisamos reequilibrar nosso cérebro nacional, valorizando engenheiros, cientistas e educadores, antes que nosso atraso se torne irreversível. Cortar recursos da ciência não é economia; é uma forma trágica de ignorância. Pagar um judiciário tendencioso e susceptível a corrupção com muito dinheiro público é uma cruz que estamos destinados a carregar aparentemente sem chance de mudar esse destino cruel. Meu respeito sincero aos advogados e juízes honestos e que ainda restam.

Dr. José Reynaldo W. de Almeida
Neurocirurgia e Neurologia
CRM: 28475 | RQE: 20057 / 20159
