Reflexão

O MUNDO NÃO VEIO COM MANUAL, E AINDA BEM

Dr. José Reynaldo Walther de Almeida
CRM 28475 SP l RQE 20057 RQE 20159

Há uma frase de Bernhard Wessling que me acompanha desde o primeiro instante em que a li. Ela diz, em essência, que o mundo seria insuportavelmente tedioso se tudo o que viveríamos estivesse previamente documentado no apêndice da nossa certidão de nascimento. E conclui com uma afirmação que, para mim, é quase um manifesto: o mundo é feito exclusivamente de sistemas fora do equilíbrio — plenos de graça, beleza e surpresas.
Nada poderia ser mais verdadeiro.
Passei a vida estudando o cérebro —esse órgão extraordinário que, ironicamente, muitos ainda tentam compreender como se fosse uma máquina previsível, um sistema fechado, um algoritmo sofisticado. Mas o cérebro nunca foi isso. O cérebro é, antes de tudo, um sistema vivo, e todo sistema vivo só existe porque está longe do equilíbrio — como nos ensinou de forma magistral Ilya Prigogine, ao mostrar que é justamente nessas condições que surgem as chamadas estruturas dissipativas, capazes de criar ordem a partir do fluxo e da instabilidade.
Se o equilíbrio fosse o destino natural, estaríamos mortos. Do ponto de vista da física, o equilíbrio é silêncio térmico. Do ponto de vista da biologia, é o fim da informação. A vida, ao contrário, só floresce onde há gradientes, dissipação de energia e reorganização contínua. É nesse território instável que surgem novas formas, novos padrões e novas possibilidades.
É precisamente por isso que o futuro não pode ser completamente previsto.
Costumamos confundir imprevisibilidade com ignorância ou com simples acaso. Mas essa é uma leitura superficial. Existem fenômenos que não podem ser previstos não porque nos falte informação, mas porque o próprio futuro ainda não existe. Ele está sendo construído em tempo real por sistemas que evoluem enquanto operam — uma ideia profundamente alinhada com a visão de Lee Smolin, para quem o tempo não é uma ilusão matemática, mas uma dimensão real, criativa, onde até as leis podem, em certo sentido, evoluir.
O cérebro é assim. A mente é assim. A vida é assim.
Quando registro um EEG, não estou capturando um “estado” do cérebro, como se fosse uma fotografia congelada. Estou observando uma trajetória, um processo histórico, irreversível, sensível ao contexto. A neurociência da complexidade nos ensinou que sistemas saudáveis não são nem perfeitamente ordenados nem caoticamente ruidosos. Eles habitam o limiar — esse espaço fértil entre regularidade e surpresa, onde pequenas variações podem produzir consequências profundas.
A patologia, muitas vezes, nasce exatamente quando essa dança se perde — quando o sistema se torna rígido demais ou, ao contrário, incapaz de sustentar padrões. A saúde, por sua vez, não é um ponto fixo, mas um equilíbrio instável, sempre provisório, sempre dependente da história do próprio sistema.
Talvez por isso a beleza seja uma propriedade tão profundamente física e biológica. A beleza não reside na simetria perfeita nem na repetição mecânica, mas na emergência de formas que não estavam explicitamente codificadas. A teoria da complexidade nos mostrou que a verdadeira criatividade surge quando sistemas operam longe do equilíbrio, explorando possibilidades que não poderiam ser antecipadas a partir de regras simples.
O cérebro saudável é belo porque é criativo. Porque responde ao mundo sem jamais se tornar previsível demais.
E isso tem consequências que vão muito além da neurociência.
Sistemas sociais, políticos e culturais também são sistemas complexos, históricos, não-lineares. Eles adoecem quando tentam eliminar a incerteza, quando buscam um equilíbrio artificial à custa da diversidade, da liberdade e da experimentação. Toda forma de autoritarismo carrega, no fundo, a ilusão de que é possível congelar o tempo e controlar o futuro.
Viver em um mundo de não-equilíbrio exige humildade epistemológica. Exige reconhecer os limites da previsão, da estatística pura, do controle centralizado. Mas oferece algo infinitamente mais valioso: a possibilidade do novo.
Sou pofundamente grato por isso.
Se minha vida tivesse sido previsível, se cada experiência estivesse escrita desde o início, eu teria vivido menos — mesmo que tivesse sobrevivido mais. A surpresa não é uma falha do mundo. É sua condição fundamental.
A neurociência, quando verdadeiramente comprometida com a realidade do cérebro vivo, nos ensina exatamente isso: pensar é um processo dinâmico, viver é um fenômeno irreversível, e compreender o mundo é aceitar que ele nunca estará completamente sob nosso domínio. E ainda bem.