Palavra de Fé

UM PADRE PRECISA SE SENTIR ACOMPANHADO

Pe. Luis Fernando Matos
Pároco de Jaborandi

O Papa Francisco tem razão — e falou com a dor de quem conhece o rebanho por dentro: “muitos sacerdotes caminham sozinhos. Sozinhos no quarto silencioso ao fim do dia, sozinhos depois da missa quando o templo esvazia, sozinhos quando a batina parece mais pesada que o próprio corpo. Falta, não raro, a graça do acompanhamento, esse sentimento de pertença que funciona como um salva-vidas no mar revolto do ministério”.
É preciso dizer com clareza, sem rodeios nem romantizações ingênuas: não se trata de afetos desordenados, nem de intimidades fora de lugar. Isso não ajuda ninguém e ainda confunde o essencial. Falo da amizade cristã verdadeira, daquelas antigas, sólidas, forjadas na caridade viva. A amizade que inclui o padre na simplicidade do cotidiano, que o acompanha na oração, que partilha as alegrias sem alarde e se faz presença discreta nas horas de dor. A amizade que sabe estar perto sem invadir e que, quando necessário, tem a coragem de dizer a verdade com respeito — porque quem ama não aplaude o erro, ajuda a levantar depois da queda.
Amizade com um sacerdote não se mede pela falta de limites nem por uma familiaridade excessiva que corrói o respeito. Mede-se pelo zelo pela sua consagração, pela oração fiel por sua vocação e pelo desejo sincero de que ele seja um bom padre. Um padre não precisa de fãs, nem de bajuladores. Precisa de irmãos na fé. Precisa de um “obrigado” dito do fundo da alma, de um convite simples para rezar juntos, de convite para tomar juntos uma refeição, de uma palavra de encorajamento quando o cansaço aperta e a solidão tenta fazer morada.
Há algo que aprendemos com o Evangelho e que, infelizmente, o tempo moderno insiste em esquecer: Jesus chamou os seus discípulos de amigos, não de servos. O próprio Senhor não escolheu caminhar sozinho. Partilhou o pão, o caminho e até a angústia. Se o Mestre quis companhia, quem somos nós para empurrar os seus ministros para a solidão?
Por isso, este artigo é um apelo. Um pedido feito com humildade e firmeza. Reze pelo seu padre. Reze por aquele que você conhece, por aquele que o batizou, o confessou, celebrou a missa pelos seus mortos, abençoou sua família. E pergunte a si mesmo, diante de Deus, sem desculpas fáceis: como posso acompanhá-lo com caridade verdadeira? Muitas vezes, um pequeno gesto sustenta um ministério inteiro.
“Já não vos chamo servos… a vós chamei amigos” (Jo 15,15). E amigo de verdade não abandona amigo no meio do caminho.