Destaques da Semana

Um coveiro com muitas histórias e mais de 2 mil sepultamentos

“O final é igual para todos e ainda há tempo para mudança, enquanto estivermos vivos”

Valdenor e a esposa Sonia que receberam a reportagem na sua casa.

Há alguns anos aposentado, o coveiro Valdenor Gonçalves, o “Lolinha”, de 75 anos, desligou-se definitivamente das funções em 4 de fevereiro, o seu último dia de trabalho como servidor público municipal após 23 anos dedicados ao Cemitério Municipal.
A reportagem esteve na residência do coveiro que contou um pouco da sua história, as lições aprendidas na vida e como a profissão o tornou uma pessoa sábia, humilde e de temperamento tranquilo.
Antes de ser coveiro, Lolinha exerceu várias atividades profissionais e morou fora de Colina por longos anos, buscando um salário melhor para a família. “Antes da prefeitura tive vários empregos, inclusive em São Paulo e Belo Horizonte, cidades que morei e em uma delas acabei conhecendo minha esposa. Sempre trabalhei porque tinha meu pai e minha mãe para ajudar”, contou o ex-servidor público que se casou mais velho. “No dia que o Alfredo Simões morreu, em 1977, um amigo estava em Colina e me convidou para ser motorista na empresa que ele trabalhava como encarregado, em Belo Horizonte. Depois do enterro eu pedi conta e fui para Minas Gerais. Trabalhei por 8 anos como motorista de caminhão e depois no guincho”.


RECEIO DE FICAR SEM REGISTRO
O entrevistado contou que decidiu prestar o concurso público porque já tinha 52 anos e ficou com receio de não conseguir mais serviço registrado por conta da idade. “Para a vaga de coveiro tinham quatro inscritos, eu passei em 1º lugar na prova escrita e outro candidato ficou na 2ª colocação. A prova prática foi feita no Cemitério Municipal para testar nossas habilidades com ferramentas de pedreiro usadas na profissão. Eu tirei de letra porque já tinha trabalhado de pedreiro, fui aprovado também em 1º, na frente do outro classificado. Acredito que eu seja o primeiro coveiro concursado da prefeitura”.
Perguntado poque escolheu prestar o concurso para o cargo de coveiro, ele respondeu: “Havia vagas para outras funções que já tinham mais inscritos e não quis arriscar porque o salário na época era compatível e havia um número bem menor de interessados, o que aumentava as minhas chances de aprovação e foi o que aconteceu. Eu estava certo”.
A data de admissão de Lolinha como coveiro foi em 25/07/2003 e o desligamento aconteceu em 5 de fevereiro deste ano. “Já trabalhei demais nessa vida e agora quero ficar mais tempo com a minha esposa Sonia, milhas filhas Tamires, Tainara, os genros e as minhas duas netinhas, que são minhas alegrias”.


EXPERIÊNCIAS MARCANTES
“Fazia mais de 10 dias que estava trabalhando como coveiro quando realizei o meu primeiro sepultamento, de um homem que caiu na caldeira da usina e morreu queimado. Por incrível que pareça, a pessoa que enterrei no meu último dia de trabalho também foi vítima de queimadura. A moça de 23 anos, da Vila Guarnieri, que teve a casa incendiada e ficou vários dias internada na UTI”.
Outra lembrança do aposentado é de um sepultamento realizado de madrugada porque a família aguardava a chegada de parentes que residiam longe. “Lembro que improvisamos um pendente de luz para clarear o túmulo e darmos conta de realizar o sepultamento”.
Outro fato curioso que ele contou é de ter chegado em casa do trabalho com um escorpião na roupa e isso aconteceu mais de uma vez. Na verdade, esse caso foi lembrado pela esposa Sonia que também participou da entrevista. Aliás, ela trabalhou também no cemitério por 17 anos, limpando túmulos.
“Quantos aniversários e dias de Natal estava de plantão, das 7 às 17h. Minha mulher e filhas ficavam no cemitério comigo para passarmos as festas juntos. Eu faço aniversário no dia 1º de janeiro e minha saudosa mãe no dia 25 de dezembro. Atualmente tem o funcionário que fica de plantão à distância e o guarda que trabalha fora do horário de expediente. Antes, se estava de plantão, tinha que ficar o dia todo”.


MAIS DE 2 MIL SEPULTAMENTOS
Nos 23 anos de profissão, o coveiro enterrou pessoas de todas classes sociais, mendigos, políticos, profissionais liberais, etc. “A média de mortos por ano varia de 120 a 140 e se usarmos como base esses dados, calculo que já sepultei bem mais de 2 mil pessoas. Houve ocasiões que em um único dia realizamos quatro sepultamentos. Todas as salas do velório estavam ocupadas, inclusive o corredor nos fundos”.


NÃO DÁ PARA ESQUECER
“Um homem, que morava em Barretos, foi enterrado no jazigo da família no cemitério de Colina. Um dos parentes entrou na justiça porque queria o corpo enterrado em Barretos e conseguiu o seu intento. Para transportar o cadáver, já de 15 dias, conseguimos dois sacos bem grandes, usados em empresa da cidade, colocamos o caixão e o corpo dentro do saco e lacramos. Usamos luva, máscara e enchemos o nariz de Vick VapoRub para amenizar o forte odor, mas parecia que nada diminuía o cheiro de podre. Depois o motorista da funerária nos contou que teve que dirigir com a cabeça para fora até Barretos porque o cheiro era insuportável”, revelou o ex-coveiro que acrescentou: “Pessoa que morre em casa e é encontrada só depois de alguns dias o cheiro também é horrível, fica impregnado no nariz. Uma mulher encontrada morta próxima a uma mina d’água, estava com o corpo muito inchado. A autópsia naquela época era feita na sala dos fundos do velório. O cheiro que exalou do corpo fez os moradores ao redor do prédio saírem de casa porque não aguentavam o odor”.
Ainda se referindo ao mesmo caso, o coveiro comentou que teve que trocar a lâmpada da sala de autópsia, a pedido da legista que estava muito fraca para a realização do procedimento. “Subi na escada para fazer a troca, o nariz chegava a queimar. Precisamos lavar a sala com creolina. Também já fiz sepultamentos de pessoas encontradas em estado decomposição. Melhor nem falar nada”. A autópsia nos dias atuais, de Colina e das cidades da região, é realizada em Barretos.
Lolinha também desmentiu uma crendice. “As pessoas sempre me falam que a cal que colocamos é para comer o corpo, o que é uma mentira. É para conter o líquido que escorre do corpo para não sair da gaveta e exalar mau cheiro”.
Outra curiosidade revelada por ele é que cabelo, osso e dente dificilmente acabam. “Os corpos com prótese ortopédica e de silicone ficam intactas também, como os implantes dentários, dá para ver os parafusos perfeitamente. Os ossos antigamente eram retirados do caixão e colocados em sacos plásticos com cinco anos, agora diminuiu para três”.
Um fato curioso é que o coveiro foi parar no hospital no momento que fechava um túmulo após o enterro. “Estava de costas trabalhando e fui atingido na cabeça pela carriola com cimento que utilizava. O corpo nem tinha acabado de ser enterrado e a família já estava brigando no cemitério pela herança. Tive que ser socorrido para o Pronto Socorro e cheguei até a levar ponto”.


TODOS ACABAM DA MESMA FORMA
Lolinha finalizou a entrevista com uma grande verdade: “Não adianta querer ser melhor do que ninguém porque no final, quando o coveiro tira os ossos da sepultura para enterrar outra pessoa no lugar, pode ser rico, pobre, preto ou branco, todos acabamos da mesma forma. Se misturamos os ossos não dá para saber de quem é porque é tudo igual, acredito que a identificação somente com exame de DNA. Precisamos viver o hoje, não se preocupar em guardar dinheiro e ficar com ignorância porque todo mundo acaba do mesmo jeito, dentro de um saco de lixo”.
Isso tudo nos remete ao texto bíblico de Eclesiastes 12 : 7: “Então o nosso corpo voltará para o pó da terra, de onde veio, e o nosso espírito voltará para Deus, que o deu”. Que tudo que foi relatado nesta reportagem nos incentive a sermos pessoas melhores e a mudar de atitude, afinal ainda há tempo para isso enquanto estivermos vivos.